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Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
THE EMANCIPATION OF LILI
Uma menina desceu do ônibus, um ano e sete meses após ter entrado muito mal-humorada naquela facudade. Pisou seus pés grandes na rua de frente para o bar onde escondera-se dos veteranos quando era caloura (em dia de trote), atravessou a rua. Em frente, a escada de onde fugira, para um outro curso, uma outra faculdade. A escada de onde descera quando sofreu a verdadeira desilusão amorosa de sua vida. Para onde voltou, de braços abertos, esperando o pedido de desculpas (que veio) que não fez sentido algum meses depois.
Seus olhos brilharam.
Fazia sete meses que treinava esse dia. Treinava cada palavra, cada olhar, cada passo. Não poderia errar nada. Sete meses e estava linda, sabia disso. Cabelos lindos, rosto perfeito. Não tinha mais do que reclamar. Os olhos curiosos queriam saber quem era aquela, de olhos grandes, procurando os amigos entre aspas.
Encontra o primeiro. Ouve o primeiro elogio. Mas não era dele que esperava o olhar culpado pelo abandono.
O esperado finalmente chegou. Melhor, ele estava sentado, com sua namorada dentuça, quando ela silenciou os que antes falavam em voz alta. Ele cheio de assunto, não entendeu o motivo do silêncio até olhar para o lado. Ela estava lá, a garota que ele abandonou por criancice, por não valorizar o amor dos outros, por não saber o que queria para si mesmo, por ter tentado fingir que amava somente pela comodidade de não estar só.
Ele não sabia se eram amigos ou namorados, meses, muitos meses atrás.
Ela o olhou profundamente, como quem conhecia a alma dele. Ele também se calou. A dentuça não entendia nada.
- Você está diferente, gostei do cabelo novo.
- Finalmente falou mais que três palavras.
- Eu sempre falei mais que três palavras.
- Claro: "Eu sou um idiota"- quatro palavras.
- Ainda está com raiva de mim?
- Não sinto raiva das baratas por serem nojentas. Elas nasceram assim.
- Conhece minha namorada?
- Você me apresentou quando?
- ...
- Eu preciso ir, vou ver meus amigos. Foi bom rever você. Faz bem pro ego saber que estamos melhores que os que notavam tanto nossos defeitos. A propósito, já pensou em fazer tratamento para espinha?
Virou-se, com o coração na mão. Tinha se libertado da raiva. Andando elegantemente, pôde perceber que ainda existia silêncio do lugar de onde havia saído. Olhou para trás, ele ainda a encarava.
Sorriu. O sorriso da vitória.
Agora poderia descer as escadas e não voltar nunca mais. Pegou novamente o ônibus.
Ginger Rogers,
12:58 AM