
**Template
por Ginger Rogers** |
Sábado, Junho 03, 2006
PÓ COMPACTO, SALTO E CABELOS FALSOS
Vestiu a cueca preta, posicionou seu pênis para que não ficasse saliente na roupa. Vestiu a meia calça bege, por cima, vestiu a saia brilhante. Colocou o top decotado que era conjunto da saia curta, os peitos falsos, passou pó compacto. Sabia se maquiar muito bem. Passou o batom vermelho, as unhas já estavam pintadas da mesma cor. Unhas postiças.De dia, ele trabalhava em uma mercearia. De noite, ela dançava em uma boate. Ele, na verdade, sempre quis ter os cabelos longos, usar cílios postiços por tempo indeterminado, sempre quis pintar as unhas e sair com elas bem lindas na segunda-feira. A noite era chuvosa, ela estava com uma sombra prata nos olhos, a música era um house meio sem graça. Dançava com aqueles sapatos enormes, também prateados, os pés já estavam acostumados. O rosto era magro, a pele enrugada, mas não de velhice. Tinha exagerado na maquiagem naquele dia, mas nem mesmo percebeu. queria se sentir mais mulher, mais amada, mais viva. Dançava como se fosse algo que fosse libertá-la de dentro dele. De baixo do palco, sorriam para a mulher de pernas grossas e roupa brilhante, que dançava de um jeito esquisito, com seu salto enorme e sua peruca com franja. Ela olhou para um deles, malhado, de boné branco, ele sorriu e foi comprar a cerveja.
Desceu do palco, após os aplausos, estava com vontade de fazer xixi. Os dois banheiros eram lado a lado. ela olhou para o primeiro, ele pensou em entrar no segundo. Estava de salto, de saia, quem iria dizer que não era fêmea? Entrou no banheiro feminino. Retirou a meia calça por alguns instantes, olhou para baixo. Viu que tinha, em lugar de vagina, aquele pênis, aquilo que negava quem ela era, que mentia na cara dela, que a tornava diferente das outras mulheres. Saiu do banheiro, bebeu bastante água, dançou algumas músicas daquele dj sem sal, voltou a ficar com vontade de ir ao banheiro. De novo, o dilema; entrou no banheiro masculino. Era como uma dupla personalidade, ela sabia que era mulher, mas tinha um lado homem que não saía dela, não desistia de mostrar que estava ali. Infelizmente. Repetiu diversas palavras em voz alta: café, bebida, brigadeiro, música...todas soavam femininas. e uma pontinha de voz de homem ainda estava lá.
Saiu da boate um pouco nervosa, estava cansada daquela situação. Tirou a roupa toda, olhou para seu corpo no espelho, sabia que não era o que estava ali, aquilo era uma mentira, uma chacota, um castigo até.
Trabalhou na segunda. Com o macacão da mercearia, passava as compras dos clientes na máquina registradora, os pés moídos por causa do salto. Olhou para as mãos, sem as unhas postiças. Viu seu reflexo no prateado da mesa do caixa: sem a peruca, era ele, mas não era feliz assim. Falou em voz alta "treze reais e trinta centavos, senhora", e não gostava mais do som da sua voz assim, tão metida a masculina. No final do expediente, correu para casa, colocou novamente a peruca; era mulher, era mulher, era mulher......era alguém, enfim, aceitando a si mesmo. A si mesma.
Pintou as unhas verdadeiras, vestiu a cueca, passou uma sombra dourada nos olhos. Vestiu o macacão azul, entrou no banheiro feminino.
Ginger Rogers,
3:07 PM
|
Anteriores
|