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por Ginger Rogers** |
Sábado, Junho 24, 2006
MULHER DE PASSAGEM ou A EFEMERIDADE DA NOVELA MEXICANA
- Cansei.
Ela levanta de saias e o vento também as levanta, com fúria. A calcinha cor-de-rosa combina com a cor das bochechas, ao ver que o homem na sua frente presenciou, mais uma vez, um momento constrangedor de sua vida.
Não era boa nem com os foras, nem com os nãos. Dizia sim, sim, aquilo era um hábito. Ele sorria, porque já sabia que ela iria andar pela praça, com vontade, e se não tropeçasse em nenhuma pedra, iria voltar puxando outro assunto, para voltar atrás. Sempre voltava atrás, não era uma mulher de palavra.
Não conseguia terminar um namoro sem voltar atrás. Tomava as decisões e voltava atrás, ela sabia que não conseguiria ficar sozinha, é abominável ficar sozinha, pensava ela. Seus argumentos eram bons unicamente para convencer a si mesma, acrescentava.
ela andou alguns metros, uns sessenta passos. O sapato de salto alto fazia dela uma mulher incrivelmente alta, tentava distrair o pensamento. Pensou no que poderia estar perdendo sem um homem com quem acordasse todos os dias, sem um homem para presenteá-la no dia dos namorados...mais uns cinquenta passos. Pensou nos beijos que não teria mais e em como já estava velha para procurar um outro homem para sua vida. Pensou em como viveria naquele apartamento grande tão sozinha, sem o eco da voz dele na cozinha, sem a toalha molhada dele pendurada no box do banheiro, sem as cuecas dele jogadas no sofá, sem as pontas de cigarro espalhadas pela casa, sem os comentários ardilosos feitos por ele- "Você anda comendo mais estes dias? Está mais gorda!"- começou, então, a voltar.
Olhava a cara dele, sorrindo, sorriu de volta.
Chegava cada vez mais perto da mesa de onde saíra tão constrangida, ele acendia mais um cigarro e baforava no cabelo da garçonete. Que homem genial, que homem esplêndido, que homem único. Chegava mais rapidamente à mesa, ele com os dentes expostos, dentes meio amarelados da nicotina, ou talvez não fosse esta a razão. ela deu o último passo até a mesa do homem. Ele tira o chapéu, sorri: "Eu sabia! Sente-se, amor, vamos conversar!"
Ela sorri, animada:
- Foda-se.
E voltou a andar em direção ao ponto de ônibus.
Ginger Rogers,
5:51 PM
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Terça-feira, Junho 20, 2006
A ESCOLHA
E porque não?
Por que não aventurar-se, por que não tentar?
Andava sem saber o que ia fazer da vida.O ano foi de trabalho, de empenho mas, antes de tudo, de decepções. Decepcionou-se com o que tinha escolhido como vida, pensou que fosse diferente, mas aquilo era mais uma demonstração do mesmo sistema do qual fugia, ou tentava fugir. Dizia ter encontrado o caminho, mas nunca o encontrou de fato.
De repente, os planos saltaram à cabeça, carregados de novos sonhos.
Tinha planos, enfim.
Era impossível não se machucar no decorrer do processo. Era impossível não machucar ninguém no processo. Era impossível que não se sacrificasse dessa vez, que não sacrificasse algumas verdades. Era sim, mais um atraso em sua vida. Mas não tinha mais como evoluir, sem passar pelo que acreditava ser o certo.Tentou, por muito tempo, fingir que estava no lugar certo, convencer outros de que estava no lugar certo.
Não pôde mais enganar-se.
Os próximos seis meses serão de sacrifício, esforço..mas também de redenção. Da primeira vez, convenceram-na de que aquilo era errado; da segunda, acreditou estar lutando por seus objetivos,quando na verdade, abdicava deles por um pseudo-amor.
Pode até ser que dê tudo errado novamente, pode até ser que não consiga novamente, pode até ser que tenha de voltar para o lugar onde não deveria estar desde o início.
Mas está feita a escolha. Sem mais justificativas, sem mais.
Sem mais.
Ginger Rogers,
1:38 PM
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