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por Ginger Rogers** |
Terça-feira, Setembro 12, 2006
AS DESVENTURAS DE MALANDRINHO-À procura de um nome
Acordava cedo, pra vender balas no sinal. Não deixavam entrar nos ônibus antes, mas agora tá todo mundo chique, com aquele colete azul, agora pode. O pai é um cachaceiro que também vende suas balas, mas gasta tudo em pinga. A mãe trabalha como doméstica na casa de granfino, do tipo daquelas de três quartos. A de malandrinho tinha, acredita-se, um só. E nesse cabiam o pai, a garrafa de pinga, a mãe, um cachorro e um gato -que viviam pacificamente. O espaço era apertado, mas dava para viver por ali, era só não demorar muito dormindo, nem ocupar por muito tempo o mesmo lugar, porque a rotatividade era essencial para garantir que todos dormissem, comessem tomassem banho e assistissem à tevê.
Ah, a rotatividade, ah, a tevê. Tudo na vida de malandrinho era a rotatividade. As balas eram sempre trocadas com outros meninos, para garantir variedade de produto e, por isso, mais vendas. A tevê era a melhor amiga de malandrinho, que não fazia outra coisa em casa a não ser assistir aos filmes violentos da tela quente. Aliás, nem poderia assistir nada durante a tarde. A tarde era feita para os ônibus, para o sinal.
Sim, mas malandrinho- assim mesmo, sem letra maiúscula- tinha um problema: a cachaça do pai e o excesso de trabalho da mãe tinham impedido que eles lembrassem de algo importante; não registraram malandrinho. Ele não tinha identidade. Tinha uns dez anos, via todo mundo ser chamado pelo nome e queria ter um também. E nem sabia direito o que era o nome.
Seria o nome igual a coleira dos Totós? Você faz "txcholiiinha, vem cá" e ele não vem, puxa pela coleira e num instante ele tá no seu pé! O povo gritava "Istanislaaaaau!" e lá aparecia o pai dele trotando. "Margareteeeeeeeee!!" E a mãe dele aparecia de touca-sempre estava de touca, achava que assim o cabelo ia ficar liso. O problema é que se ela nunca tira a touca, como é que a gente vai saber?
Pois é, queria um nome. Chamavam-o de malandrinho porque, apesar de seus 10 anos, sabia afanar como ninguém. Certa vez andava com seu saco de balas e viu uma mulher tirando a carteira da bolsa, para pegar o dinheiro do ônibus. Teve a astúcia de se bater, "sem querer", na mulher, que derrubou a carteira. Enquanto fingia-se de educado, pegando a carteira para a moça, sacou uns 20 reais. E saiu antes que ela notasse.
Antes que alguém pense que é coisa meio "Cidade de Deus", malandrinho nem era preto nem branco. Era amarelado, das verminoses, de andar descalço, das coisas que comia. Usava o mesmo boné todo dia, que tinha uma coisa escrito; parecia algo do tipo..do tipo...Naique, algo assim. Era o seu boné, o boné que definia como ele queria ser. Naique era marca chique, um dia seria igual aos bacanas que existem por aí.
Mas primeiro precisaria de um nome.
(CONTINUA)
Ginger Rogers,
9:45 AM
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