**Template por Ginger Rogers**

Terça-feira, Setembro 19, 2006

AS DESVENTURAS DE MALANDRINHO-À procura de um nome

As sandálias andavam meio desgastadas. Acho que de tanto andar. Caminhava sem nome por aí, aprendeu a furtar cada vez melhor, cada vez melhor. E os anos não passavam, ainda tinha dez anos. Dor de cabeça não podia existir para malandrinho, ele tinha de trabalhar. E olhando os outros meninos na porta da escola, pensava "eu não queria mesmo carregar esse monte de papel!"...pensamento bobo, verdadeiro. Os meninos de colégio eram sempre mais corcundas.
Jogou a caixa de balas no chão. Estava cansado de acordar tão cedo, enquanto seu pai dormia embriagado. Pôs o boné de lado.
Faria juz ao seu próprio..suposto nome...
Primeiro, precisava de havaianas novas. Depois, de uma bermuda nova. Para isso era preciso dinheiro. Dinheiro de madame, porque madame é mais medrosa, se você pedir ameaçando dar um murro na cara ela dá até as chaves do carro. Madame não quer ficar com olho roxo, para não estragar a maquiagem. Já reparou como aqueles prédios de gente chique estão sempre vazios? Parece que esse povo só vive na rua, ou preso dentro de casa, ou em festa. Aqueles prédios gigantes, ninguém saía deles. Ninguém entrava, só os funcionários da limpeza.
As madames, aquelas cretinas, elas sim iam sentir o grande poder de malandrinho!
Malandrinho sonhava agora em ser como os caras mais temidos, aqueles que tinham muito respeito. Vender bala nunca deu lucro e o que ele ganhava era convertido em cachaça para o pai e algumas latas de leite para o irmão. Sonho de consumo mesmo era o boné "Naique", aquele que vendiam no camelô. Dizem que é original, tão baratinho! Desse jeito, acaba querendo tênis também. A tevê ensina tanta coisa legal, pra quê escola? Aprendeu que mulher preta tem que trabalhar como empregada, que homem preto é o malandro assaltante, que o homem de sotaque só ganha dinheiro roubando dos que puxam do "érre". Que preto não pode ir pra essa coisa de ensino superior e que superior mesmo é "o branquelo". Preto, de acordo com a tevê, ou é escravo, ou empregado, ou bandido.
Ainda bem que ele era amarelo. Esses "preto" fedido que se acostumava com a pobreza, imagina. Ele era chique, amarelo, cor de ouro. Ou de mijo, diziam, depende do ponto de vista.
Contactou os amigos já experientes na arte de afanar. Dois deles, cujo nome nem era importante, já tinham até matado um cara qualquer. Engraçado era como todo mundo tornou-se qualquer, esses dias. malandrinho percebeu que todo mundo era muito parecido, as madames de cabelos, roupas, bolsas iguais. E eram as bolsas, as bolsas que mais interessavam. malandrinho ganhou sua primeira arma. Aprendeu a apontar para a cara dos outros. Aprendeu a sentir raiva, como os filmes de Van Damme.
Encontrou a primeira madame: usava saltoos finíssimos, óculos enormes, bolsa gigante e dourada. Saía do carro preto, brilhante. Aproximou-se com seus dez anos, debaixo de sol, com a arma presa pela bermuda, nas costas. Olhou com cara de quem ia pedir alguma coisa. Ela olhou com cara de quem nem via nada em sua frente.
E ele era alguma coisa para aquele povo? Era um excrementinho qualquer, aqueles que só eram abraçados quando tinha algum político querendo voto. Não era nada, não, só em época de eleição.
Chegou tão perto que a madame passou a estranhar.
"Bom dia, madame, é que eu preciso de dinheiro para comer, a senhora pode me dar alguma coisa?"
"Não tenho não, menino"
"Eu me chamo malandrinho, moça"
"E desde quando isso é nome?"
Desde que nome passara a importar menos que a vontade de enriquecer e cortar a cabeça dos branquelos agudos.
Enriquecer, ser respeitado e nunca mais receber olhar de pena das madames que não compravam bala.
Enriquecer para se vingar daquela cachaça de seu pai, da exploração da mãe por uma merdica de dinheiro. Para se vingar dessa merda toda que é ser invisível.
Ia ser visível na raça, a força.
Atirou.
(CONTINUA)

Ginger Rogers, 10:22 AM

|

Anteriores
Caros Amigos
Megadescontrol
Flog de Ícaro
Mundo Canibal
Pensar Enlouquece
Lactobacilo Morto
Jogando Conversa fora
Outro Brasil
Quem sabe uma(Quase)Bridget?
Eletrocardiograma-Blog do Lucas
Papo de Mulherzinha
Blog Ternura Antiga
Sempre Chove-Blog de Contos da Bia
Qual o Plural de Vai Tomar no Cu?
Arte na Internet
Jesus Me Chicoteia
Gazeta dos Blogueiros
Entretantas-eu
Cultura e Literatura
Blog O Espírito da Idéia
Vida Que Muda
Mulheres e Fêmeas
Para Jornalistas e amantes de jornalismo
Página Oficial de Tom Zé
Jogo de Palavras

Kibe Loco

EU TENHO
AUTOCRÍTICA

O Ponto de Encontro dos Blogueiros do Brasil



Diretorio 100% brasileiro

 Links & Sites