Quinta-feira, Setembro 28, 2006

AS DESVENTURAS DE MALANDRINHO-À procura de um nome(Final)

Era dia de missa. Todo mundo em casa gostava de usar as melhores roupas para ir à igreja: sandálias de couro para malandrinho, sapatos recém adquiridos dos sacos desperdiçados pelos "ricões". Eram dúzias de sapatos que eles jogavam no lixo, de qualquer jeito! Dona Margarete achou, por esses dias, um vestido florido liindo, jogado fora por causa de um rasgadinho. Costura, ora! Pois usou o vestido novo para ir à igreja. Os domingos eram sagrados, comiam o pedaço de pão com manteiga e tomavam um gole de suco na venda, dia de extravagância.
malandrinho , depois de ter atirado em uma mulher na rua e errado a pontaria (acertou a porta do carro, imagina!), tinha treinado com seus dois amigos. Fizeram alguns assaltos mal-sucedidos, mas arrecadaram um bom dinheiro essa semana. Istanislau achava que aquelas notas de cinquenta reais de malandrinho eram de vender bala..."ó paí, que abestalhado!", pensava malandrinho.
A semana seguinte era especial. Depois de ter tomado seus primeiros goles de cerveja, fumado sua primeira maconhazinha, já conhecia melhor o mundo, já estava preparado para os planos maiores. Foram malandrinho e os dois amigos ao bar, ele novinho, em dia de aniversário, precisava comemorar ter crescido alguns centímetros. Encontraram a Juci, deliciosa, de saia curtinha, dançando pagode até o chão. malandrinho já tinha sido iniciado em tantas coisas....como era esse negócio mesmo de sexo? Chegaram, os três, perto de Juci. Ela dançando, toda gostosona, com um decotão.
Os dois meninos tinham um plano: chamar Juci para participar do maior assalto que eles já fizeram, um banco da rua. Juci era miseravona, garota de 15 anos, malvada, gostava, desde pequena, de matar gatos...tinha nascido pra coisa.
"Se você entrar na onda, Juci, a gente te dá um pedacinho do dinheiro". "Mas o que exatamente eu tenho que fazer?". "Você tem que distrair o gerente com a sua gostosura, com esses peitões".
Todos riram.
malandrinho, que não era besta, foi logo se aconchegando no decote de Juci, que deixou porque ele era bonitinho. "Deixa eu te dar um beijinho, nêga..". "Você não é novinho demais não?". "Eu dou conta do recado, meu bem. Peça o que você quiser". "Quero dançar uns dois sambas e sair daqui, pra te ensinar umas coisinhas...o que você acha?"
"Bora".
Depois da noite conturbada e saborosa dos três garotos, planejaram o assalto. Juci iria entrar às três horas, começar a conversar com os seguranças, simular um ataque de pânico e chamar a atenção do gerente também. Levar os seguranças pra dentro, fazê-los buscar água, aquela coisa toda que os homens fazem fingindo gentileza, quando na verdade querem é transar com a mulher...
Depois era só montar a bagaceira.
Duas e cinquenta e nove. Os meninos guardam as armas nas calças, armas emprestadas por uns contrabandistas conhecidos dos dois meninos amigos de malandrinho. Juci usa um vestido vermelho, com os peitões quase de fora. Entra no banco. Senta-se, por uns tempos, do lado do gerente e o encara, sexualmente. Ele sorri para ela, ela sorri de volta. Levanta, então, e começa, hipoteticamente, a sentir dores no peito. Cara de dor, leva as mãos ao pescoço, finge não estar conseguindo respirar. O gerente interrompe o que fazia e pergunta o que há: ela diz que não se sente bem. Logo, desmaia nos braços do gerente, que chama os seguranças para ajudá-lo. Interessados nos peitos de Juci, quase completamente de fora, os seguranças correm.
E entram, pela porta da frente, os três meninos, armados, encapuzados, gritando palavras de ordem. Os seguranças não conseguem conter a tempo: logo os meninos rendiam os atendentes dos caixas (exatamente um refém para cada menino). Eles colocam todo dinheiro que podem na sacola, depois catam Juci para o lado de malandrinho e garantem que ela esteja armada. Um dos seguranças dispara, começa então o tiroteio. Malandrinho, já bom de mira, mata dois. Restam três seguranças, que já chamaram a polícia...eles atiram em Juci, que perto da janela, cai, morta.
Os meninos correm, conseguem fugir. malandrinho sorri, ficara rico. No chão, na entrada do banco, o corpo de Juci, ensangüentado. malandrinho passa por cima. "Ela tá atrapalhando o caminho, coisa de quebra-mola". Os três riem.
Sabem que serão encontrados, sabem que serão presos, sabem que serão libertados. Sabem que essa agora era a vida para sempre.
malandrinho nem lembrava da falta de identidade. Lembrava, sim, que agora tinha dinheiro para comprar quantos "Naiques" quisesse.
Dinheiro. Talvez este fosse seu nome agora.

Ginger Rogers, 1:10 PM

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