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Sexta-feira, Dezembro 01, 2006
"CAUSOS" DE UMA INFÂNCIA INFAME- Parte 2
Aí passamos a brincar horrores, o dia todo, bem depois que eu passei a usar só vestidos. Tinha um vermelho, o famigerado branco de florezinhas, um verde, ahh, eram tantos...E nós, assim, sem mais, descobrimos um lugar perto de uma casa grande, onde estavam construindo uma casa mas nem tinham terminado; aí ficavam um monte de barro, alguns tijolos e uma árvore, a única árvore do local, de braços dados com um penhascozinho, cujo paradeiro era um monte de lixo. Brincávamos o tempo todo por lá (e nesses dias tinha de usar short): brincávamos de "Enchente, Quem Salvará Nossos Filhos?", aqueeeele filme do ônibus cheio de adolescentes que bate de frente com uma enchente, aí um monte de gente morre afogada...pois é, a gente brincava disso no barro. É OBVIO que eu saía marrom do lugar, minha mãe se revoltava, eu tomava banho e ia sentar pra assistir "Fantasia" (lembra? Fantaaasiiiiiiiiaaaaaaaaa nooo aaaaaaaaaaaaarrrrr).
Tínhamos outra brincadeira também, essa era só de menina: amarrávamos uma corda num galho da árvore, para brincar de balanço. Agora, olha a burrice: brincar de balanço de frente para um penhasco...só podia dar merda. Quem era a primeira a testar? Óbvio.Eu. Sentei no balanço improvisado, quem começou a balançar? Minha grande amiiga, Alana. Balança, balança, balança, estava ficando cada vez mais alto. Eu, na empolgação, larguei a mão da corda, com um detalhe: estava no alto. Já teve aquela sensação, no sonho, de andar no ar? Eu já FIZ isso. Pedalei no ar, querendo descer, e o povo rindo. Parei na borda do penhasco, os braços meio que me empurrando para trás...não caí no monte de mosca, merda e saco plástico.
De noite, era o glamour. Brincávamos de "Confidência" (ou era "Correspondência", não lembro). Era um jogo muito sem graça: a gente não podia falar, só escrever bilhetinhos. Rafael morava no térreo, logo, brincávamos perto da casa dele (uma vez ele disse pra mim, logo após brincar de patins, que eu tinha um chulé muito cheiroso, foi tãããããão lindo..). Eu não era muito fã da tal brincadeira, brincava mesmo para receber bilhetinhos de Rafa. Ele me mandava vários bilhetes com "te amo"..teve um "super forte", que tinha escrito "você é minha vida, sem você eu morro", sem vírgula, porque homens não sabem usar vírgula. Ah, como eu fiquei toda me achando...por pouco tempo.
Alana e Tata (uma menina cujo nome nem sei escrever..acho que é Taianan) me contaram uma coisa terrível: Thiara tinha feito umas coisinhas com Rafael. Eles se esconderam juntos, na última brincadeira de esconde-esconde e aprontaram...digamos...bastante. Fiquei revoltadíssima, olhei para a cara dele e rasguei o bilhete. Fomos, as meninas todas, para o lugar de adultos: o Laaaaaaargo. O Laaaaaargo, ná época, era a praça popular, famosa, onde todo mundo ía para paquerar, para fofocar e até para dançar, com os carros com o fundo aberto e grandes caixas de som, tocando "É o Tchan" e muitos outros sucessos. Depois de conversar bastante e tomar coquetéis sem álcool, que eram rosinha e com gosto de tutti-frutti (para me sentir adulta), fui para casa. Escrevi na minha agenda, dormi.
No outro dia (era época de férias, tá), brincamos de "aventura": era só subir a rua toda desbravando a mata (que ficava atrás dos prédios e que hoje nem existe mais); os meninos subiam nas árvores e brincavam de gorila, as meninas saíam correndo sem função nenhuma. Havia boatos de uma maluca que tinha um galinheiro por ali (uma mata gigante, ela achava que era to-da dela), mas a gente não levou muito a sério. De repente, lá vem ela: cabelos pretos, cacheados, um pedaço de madeira na mão e muitos gritos.
-Saaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiaaaaaaaaaaaaaam do meu galinheeeeeeeeeeeeeeeeiroooooooo pesteeeeeeeeeeeeeesssssssssssss!!!!!!!!!!!!!!!!!!
A maluca começou a bater na gente e os meninos, lá em cima das árvores, não sabiam se desciam ou se não desciam. Thiara pulou o muro primeiro, porque era a menor e ainda tomou umas porradinhas da maluca; Alana depois, era a chefona, oras; Tata e, por último, eu, a gigantona, enquanto os meninos gritavam "Me espeeeereeeeeeeeem" e a maluca batia na árvore, mandando eles descerem. É claro, eu estava de vestido, o branco que vocês já conhecem. Pulei, esbaforida, o vestido subiu.
Na frente do muro, váááários meninos jogavam bola. Todo mundo viu minha calcinha.
(continua na próxima sexta!)
Ginger Rogers,
11:28 AM
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