Sexta-feira, Dezembro 08, 2006

"CAUSOS" DE UMA INFÂNCIA INFAME- Final

Você vai crescendo e percebe: dar a mão não é tão ruim. Toda menina normal não fica com vergonha de fazer isso, de dar uns celinhos, ainda mais se o cara está visivelmente apaixonado, total e completamente apaixonado por você. Eu não. Eu nunca fiquei muito confortável com as situações desse tipo, quando caras me davam presentes, quando eles me faziam elogios, eu simplesmente baixava a cabeça, dava um sorriso amarelo e mudava de assunto. E foi assim quase que minha adolescência toda, especialmente na fase que deixei de ser uma seca invisível para os meninos. Sim, um belo dia todo mundo se torna visível.
E Rafael continuava insistindo. Um dia apareceu com flores na minha janela, na verdade, uma flor, uma margaridazinha, ele todo perfumado me dizendo que me amava. Outra vez cantou pra mim, outra, me mandou trocentos bilhetinhos. Eu, por fora, permanecia irredutível. Por dentro estava completamente apaixonada. Nunca soube direito porque fazia aquilo, acho que tinha vergonha, que me sentia culpada, afinal, com 12 anos tinha que ser a boneca de minha mãe, não tinha que namorar (isso na minha cabeça, claro).


Eu, de vez em quando, deixava ele pegar em minha mão. Passávamos horas de mãos dadas, enquanto o tempo corria, todos conversavam, a noite passava...e dava a hora de eu ir para casa. Eu fugia, morria de medo de ele tentar me beijar. Achava o beijo uma coisa assustadora e nojenta, não me imaginava beijando, só se fosse um beijo desses dos filmes, em que o cara vira a mulher e puf, dá um pitoquinho xoxo. Então tá, eu saía correndo pra casa, depois ficava me lamentando.
Um belo dia, brincando no banco, de correspondência (a brincadeira chata, lembra?) tomei um susto: recebi 476 "te amo" em uma carta que Rafael fez pra mim. Fiquei absolutamente corada. Do meu lado, estavam Alana, Thiara e Taianan. Tinha uma outra, Andressa, completamente apaixonada por Rafael. Elas nem esperaram eu comentar: puxaram da minha mão, com uma curiosidade maligna, e de repente, não mais que de repente, rasgaram a carta em quatrocentos milhões de pedacinhos.
Estavam tão liiiiiiiiiiiindas aquelas folhas de caderno...agora despedaçadas terrivelmente. Tentei disfarçar a raiva, sentei no "banco chique" e começamos todos, inutilmente, a conversar. Imagina, 12 anos não é mais idade de brincar de esconde-esconde! Eu estava na fase das saias curtas e batom.


Alguns dias depois, tudo esquecido, Rafael, que na época estava com mania de roubar minhas sandálias (enquanto eu brincava de elástico, o novo fever), bafou uma das minhas havaianas, só pra que ele entrasse no prédio, eu o seguisse e pudéssemos, enfim, ficarmos sozinhos. Entrou no prédio, subiu as escadas e me disse: "Só devolvo a sandália se me der um beijo". Eu nunca tinha beijado, estava morrendo de medo. Ele foi chegando perto de mim, olhos profundos, me aproximou da parede e eu me rendi. Me deu um selinho e (mais uma vez, pooourra) eu corri.


O tempo passou. Rafael encontrou namoradas, terminou, voltou a me pedir em namoro, desistiu, voltou, desistiu...até que ficamos mais velhos. Estava eu, com meus 18 anos, lavando pratos e tentando fazer um "Miojo Refinado" (tradução: miojo+porcarias da geladeira+azeitonas+tempeiro do saquinho), quando alguém bate à porta. Era ele. Depois de mais de quatro anos sem nos vermos, lá estava ele.
- Seu irmão tá aí?
- Não.

Nos olhamos em silêncio. Ele quebra o silêncio e diz:
- Passei tanto tempo tentando te dar um beijo...me dá um beijo, pô!
Ignorei o fato de estar no pátio do meu prédio e o beijei. Ficamos ali, tantos minutos,...ao nos separarmos, rimos.
- Não vai contar pra ninguém, né?
Não lembro quem disse essa frase. Depois disso, não nos vimos mais. eu me mudei, ele também.
Maaaaaaaaaaassss....
Mês passado, papys me deu uma carona quando eu estava saindo do curso e, no carro, estava o novo funcionário do trabalho dele, que disse ser também nosso vizinho.
Adivinha quem era?

Ginger Rogers, 8:57 PM

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